O Partido dos Trabalhadores do Curdistão se transforma numa força para a democracia radical – Rafael Taylor

O Partido dos Trabalhadores do Curdistão se transforma numa força para a democracia radical.” – O novo PKK: desencadeando uma revolução social no Curdistão

Rafael Taylor é um socialista libertário e jornalista independente que vive em Melbourne. Ele também é responsável pelo podcast “Floodgates of Anarchy”, membro da ASF-IWA e organizador da Aliança da Esquerda Libertária de Melbourne.

Com a perspectiva de independência curda se tornando cada vez mais iminente, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão se transforma em uma força para a democracia radical.

Excluídos das negociações e traídos pelo Tratado de Lausanne de 1923, depois de ter sido prometido um Estado próprio pelos aliados da Primeira Guerra Mundial, durante a partilha do Império Otomano, os curdos são a maior minoria sem Estado no mundo. Mas hoje, tirando um contrariado Irã, pequenos obstáculos permanecem para a independência curda no norte do Iraque. Turquia e Israel se comprometeram em apoiar enquanto as mãos da Síria e do Iraque continuam atadas pelos rápidos avanços do Estado Islâmico (anteriormente o ISIS).

Com a bandeira curda desfraldada sobre todos os edifícios oficiais e da Peshmerga, mantem-se os islamistas no portão com a tardia ajuda militar dos Estados Unidos, no sul do Curdistão (Iraque) juntando-se aos seus companheiros no oeste do Curdistão (Síria) como a segunda de facto região autônoma do novo Curdistão. Eles começaram a exportar o seu próprio petróleo e retomaram Kirkuk, região rica em petróleo, eles têm a seu próprio parlamento eleito, uma sociedade secular e pluralista, fizeram seu pedido de entrada como Estado nas Nações Unidas, e não há nada que o governo iraquiano poderia fazer – ou que os EUA fariam sem o apoio de Israel – para detê-lo.

A luta curda, no entanto, está longe de ser estreitamente nacionalista. Nas montanhas acima de Erbil, no coração histórico do Curdistão, que atravessa as fronteiras da Turquia, Irã, Iraque e Síria, uma revolução social nasceu.

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Mapa atual da Síria e do Iraque. Em amarelo, no norte da Síria, áreas controladas pelos curdos da Síria, em verde, áreas do norte do Iraque que são controladas pelos curdos iraquianos (fonte: Wikimedia Commons)

A Teoria do Confederalismo Democrático

Na virada do século, enquanto o radical estadunidense Murray Bookchin havia falhado em sua tentativa de revitalizar o movimento anarquista contemporâneo com a sua filosofia de ecologia social, Abdullah Öcalan, o fundador e líder do PKK, foi preso no Quênia por autoridades turcas e condenado à morte por traição. Nos anos que se seguiram, o velho anarquista ganhou um defensor improvável do militante endurecido, cuja organização paramilitar – o Partido dos Trabalhadores do Curdistão – é amplamente considerada como uma organização terrorista por liderar uma guerra de libertação nacional violenta contra a Turquia.

Em seus anos de confinamento solitário – o líder do PKK, preso desde que sua pena foi comutada para prisão perpétua – Öcalan adotou uma forma de socialismo libertário tão obscuro que somente alguns anarquistas tinham ouvido falar: o Municipalismo Libertário de Bookchin. Öcalan, posteriormente, modificou, atenuou e renomeou a visão de Bookchin para o “Confederalismo Democrático” com o resultado que a União de Comunidades do Curdistão (Koma Civakên Curdistão ou KCK), a experiência territorial do PKK de uma sociedade livre baseada na democracia direta, se manteve praticamente um segredo para a maioria dos anarquistas, e mais ainda para o público em geral.

imagesEmbora a conversão de Öcalan fosse o ponto decisivo, o renascimento de uma literatura mais ampla da esquerda libertária e independente começou a soprar nas montanhas e a passar de mão em mão entre a base do movimento após o colapso da União Soviética na década de 1990 “(Eles) analisaram ​​livros e artigos de filósofos, feministas, de (neo) anarquistas, comunistas libertários, comunalistas e ecologistas sociais. Assim, autores como Murray Bookchin (e outros) tem sua atenção“, diz o militante curdo Ercan Ayboga.

Öcalan se lançou em seus escritos na prisão para uma revisão profunda e autocrítica da terrível violência, do dogmatismo, do culto à personalidade e do autoritarismo que favorecera: “Tornou-se claro que a nossa teoria, o nosso programa e praxis da década de 1970, produziu nada além de um separatismo e uma violência vãos, e, o que é pior, que o nacionalismo do qual devemos nos opor, se infestou em todos nós. Mesmo se nos opusermos aos seus princípios e a sua retórica, temos, no entanto, estes aceitos como inevitáveis.” Uma vez que o líder indiscutível, Öcalan disse que “dogmatismo prospera em verdades abstratas que se tornam formas comuns de pensar. Uma vez que você colocar essas verdades gerais em palavras, você se sente como um sumo sacerdote a serviço de seu deus. Este é o erro que eu cometi.

Öcalan, ateu, tem escrito nos últimos tempos como um pensador livre, liberto da mitologia marxista-leninista. Ele disse que estava procurando uma “alternativa ao capitalismo” e um “uma substituição para um modelo em ruínas do… ‘socialismo realmente existente’”, quando conheceu Bookchin. Sua teoria da Confederalismo Democrático foi desenvolvida a partir de uma combinação de inspiração intelectual do comunitarismo, de “movimentos como os zapatistas” e de outros fatores históricos da luta do norte do Curdistão (Turquia). Öcalan declarou-se um estudante de Bookchin, e após o fracasso de uma correspondência eletrônica com o velho teórico, que para seu grande pesar, encontra-se demasiado doente em 2004 para continuar uma troca de correspondências do seu leito de morte, o PKK tem honrado ele, chamando-o de “um dos maiores pesquisadores em ciências sociais do século XX“, em ocasião do segundo aniversário de sua morte.

A Prática do Confederalismo Democrático

O PKK vem seguindo aparentemente o seu líder, não só através do rótulo específico de Bookchin do eco-anarquismo, mas também pela interiorização ativa desta nova filosofia na sua estratégia e táticas. O movimento abandonou sua sangrenta guerra para a revolução stalinista/maoísta e os métodos de terror que a acompanhavam, e começaram a considerar uma estratégia em grande parte não-violenta visando uma maior autonomia regional.

Depois de décadas de traição fratricida, de cessar fogo perdidos e sem futuro, de detenções arbitrárias e períodos de hostilidades, em 25 de abril deste ano, o PKK anunciou a retirada imediata das suas forças da Turquia e seu reposicionamento no norte do Iraque, pondo fim a um conflito de 30 anos com o estado turco. O governo turco tem realizado, simultaneamente, em um processo de reforma constitucional e jurídico para se dedicar aos direitos humanos e culturais da minoria curda dentro de suas fronteiras. Este é o mais recente de uma longa negociação entre Öcalan e primeiro-ministro turco Erdogan como parte de um processo de paz iniciado em 2012. Não houve violência por parte do PKK por um ano e razoáveis apelos têm sido lançados para que o PKK seja retirado da lista mundial de organizações terroristas.

Resta, no entanto, uma história sombria vinculada ao PKK: práticas autoritárias que não se encaixam com a sua nova retórica libertária. Em vários momentos, os seus ramos foram acusados ou suspeitos de angariação de fundos para o tráfico de heroína, extorsão e recrutamento forçado. Se isso for verdade, não há desculpa para este tipo de oportunismo mafioso, apesar da evidente ironia em que o próprio Estado turco genocida foi financiado em grande parte pelo monopólio lucrativo na exportação legal para o Ocidente de opiáceos “medicinais” cultivados pelo estado, e que se tornou possível através do serviço militar obrigatório e dos impostos sobre um enorme orçamento antiterror e suas forças armadas de grandes dimensões (a Turquia possui o segundo maior exército da OTAN, depois Estados Unidos da América).

Esta é a hipocrisia habitual na guerra contra o terrorismo: quando os movimentos de libertação nacional imitam a brutalidade do Estado, invariavelmente não são os seus representantes designados como terroristas. Öcalan, ele mesmo, descreveu este período vergonhoso como aquele de “gangues dentro da nossa organização e de práticas abertamente voltadas para o banditismo, que organizando operações perigosas, inúteis, envia, em massa, jovens à morte.”

Sobre as Correntes Anarquistas na Luta

Como mais um sinal de que ele abandonou sua orientação marxista-leninista, o PKK começou a fazer propostas explícitas para o anarquismo internacional, até mesmo realizar um Workshop no Encontro Internacional Anarquista de Saint-Imier, realizado na Suíça, em 2012, o que causou confusão, desordem e discussões on-line, mas passou despercebido na imprensa anarquista de forma geral.

Janet Biehl, viúva de Bookchin, é uma das raras anarquistas ocidentais que estudaram KCK e tem escrito bastante sobre suas experiências no site New Compass, compartilhando conversas igualmente com os radicais curdos envolvidos no cotidiano das assembléias democráticas e estruturas federalistas, bem como a tradução para o Inglês e a publicação do primeiro grande estudo anarquista na forma de um livro sobre o tema: A autonomia democrática no norte do Curdistão: Conselhos Movimento de Libertação de Gênero e Ecologia (2013) [Democratic Autonomy in North Kurdistan : The Council Movement, Gender Liberation, and Ecology].

A outra e única voz anglofônica anarquista e em inglês é o Fórum Anarquista do Curdistão (KAF), um grupo pacifista de curdos iraquianos que vivem na Europa e reivindicam não possuir “vínculos com outros grupos de esquerda.” Apesar de apoiar um Curdistão federalista, o KAF disse que “não apoiará o PKK até que este abandone completamente a luta armada, participe na organização dos movimentos populares de base para a satisfação das necessidades sociais da população, denuncie e desmantele os seus métodos de luta centralizada e hierarquizada, para  tornar-se uma federação de grupos locais e autônomos, cortando todos os laços e relações com os Estados do Oriente Médio e do Ocidente, denunciando a política de poder carismático, e será assim que se converterá em anti-estatista e anti-autoritário, portanto,somente nestes termos teremos o maior prazer em cooperar plenamente com eles. “

Na Sequência, Bookchin no texto

Aquele dia (excetuando o pacifismo) poderá não estar longe. O PKK / KCK parece seguir a ecologia social de Bookchin ao pé da letra, com quase tudo, até e incluindo a sua participação contraditória no aparelho de Estado pelas eleições, como foi previsto nos escritos do anarquista americano.

Como escrito por Joost Jongerden e Ahmed Akkaya, “o trabalho de Bookchin fez a distinção entre duas concepções de política, o modelo grego e do modelo romano,” isto é, a democracia direta e da democracia representativa. Bookchin vê sua forma de neo-anarquismo como um renascimento prático da antiga revolução ateniense. “O modelo de Atenas existe como uma contra a corrente, e uma corrente subterrânea, encontrando sua expressão na Comuna de Paris de 1871, nos conselhos (sovietes) no início da revolução de 1917 na Rússia e na Revolução Espanhola de 1936.”

O Comunalismo de Bookchin contém uma abordagem em cinco etapas:

  • Autonomizar as municipalidades existentes utilizando da lei para localizar o poder de decisão.
  • Democratizar as municipalidades através de assembléias de base.
  • Unir as municipalidades “em redes regionais e nas confederações mais amplas […] trabalhar gradualmente para substituir os Estados-nações por confederações municipais“, assegurando que “os mais altos níveis da confederação são principalmente funções de coordenação e de administração.”
  • Unir os movimentos sociais progressistas” para fortalecer a sociedade civil e estabelecer “um ponto focal comum para iniciativas e movimentos de todos os cidadãos”: as assembléias. Essa cooperação não é idealizada “porque nós esperaríamos encontrar sempre um consenso harmonioso, mas ao contrário, porque acreditamos em desacordo e na deliberação. Uma sociedade se desenvolve através dos debates e dos conflitos”. Além disso, as reuniões devem ser espaços de uma luta laica “contra as influências religiosas na política e no governo” e deve tornar-se “uma arena de luta de classes.

Para alcançar a sua visão de uma “sociedade sem classes, baseada no controle político coletivo dos meios de produção socialmente importantes“, ele apelou para a “municipalização da economia” e o estabelecimento de uma “alocação confederada de recursos para garantir o equilíbrio regional. “Resumindo, isto é equivalente a uma combinação de autogestão e planejamento participativo para atender às demandas sociais: uma economia anarquista clássica.”

Como disse Eirik Eiglad, ex-editor e analista de Bookchin e da KCK:

De particular importância é a necessidade de combinar as ideias de movimentos feministas e de ecologistas progressistas com novos movimentos urbanos e as iniciativas de cidadãos, bem como dos sindicatos, das cooperativas dos coletivos locais…

Acreditamos que as idéias comunalistas de uma democracia baseada sobre as assembléias podem ajudar a trazer essa troca progressiva de idéias em uma base mais permanente, e com conseqüências políticas mais diretas. No entanto, o comunalismo não é apenas um meio tático para unir esses movimentos radicais. Nosso chamado para a democracia municipal é uma tentativa de colocar a razão e a ética a frente do debate público.”images (1)

Para Öcalan, o confederalismo democrático significa uma “sociedade democrática, ecológica e livre em matéria de gênero“, ou simplesmente “democracia sem Estado“. Ele se opõe explicitamente a “modernidade capitalista” e “modernidade democrática“, em que “os três antigos elementos de base: o capitalismo, o Estado-nação e o industrialismo” são substituídos por “uma nação democrática e economia comunal e uma indústria ecológica.” Trata-se de “três projetos: um para a república democrática, um para o confederalismo democrático e um para a autonomia democrática“.

O conceito de “república democrática” refere-se principalmente à aquisição, muito tempo negado, da cidadania e dos direitos civis dos curdos, incluindo a capacidade de falar e ensinar livremente a sua língua. A autonomia democrática e o confederalismo democrático fazem referência ambas às “capacidades autônomas de pessoas e uma forma mais direta de estrutura política, menos representativa.”

Enquanto isso, Jongerden e Akkaya enfatizam que “o modelo de livre municipalismo visa alcançar a questão de baixo para cima (“bottom-up”) na concepção e no funcionamento de um órgão administrativo participativo, do local ao provincial.” O “conceito de um cidadão livre (ozgur yarttas) [é] um ponto de partida”, que “compreende as liberdades civis fundamentais, como a liberdade de expressão e de organização.” As unidades de base do modelo são as assembléias de bairro ou “conselhos“, como podem ser também chamados.

Há uma participação popular nos conselhos, inclusive da população não-curda, e enquanto as assembléias de bairro são fortes em várias províncias, “em Diyarbakir, a maior cidade do Curdistão turco, há reuniões em quase todos os lugares.” Além disso, “nas províncias de Hakkari e Sirnak … existem duas autoridades paralelas [KCK e o Estado], incluindo as estruturas confederdas democráticas que são o mais poderosas na prática.” O KCK na Turquia “é organizado no nível da aldeia (köy), da área urbana (mahalle), do distrito (Ilce), cidade (Kent), e da região (Bölge), que é chamado de “o Curdistão do Norte.”

O “maior” nível da federação no Curdistão do Norte, o DTK (Congresso da Sociedade Democrática) é uma mistura de delegados de base eleitos por seus pares com mandatos revogáveis, que constituem 60% de todos os representantes e de “mais de quinhentas organizações da sociedade civil, sindicatos e partidos políticos“, que compõem os 40% restantes, cerca de 6% são “reservados para representantes das minorias religiosas, dos universitários, outros especialistas e demais pessoas com um determinado ponto de vista particular.”

A proporção dentro dos 40% das pessoas que são igualmente grupos delegados diretamente da sociedade civil democrática e não-estatista em comparação com aqueles que não foram eleitos ou nomeados pelas burocracias dos partidos políticos não é clara. A sobreposição de indivíduos entre movimentos independentes curdos e partidos políticos curdos, bem como a internalização dos muitos aspectos do processo da democracia direta por esses partidos, complicam ainda mais a situação. No entanto, o consenso informal notado entre os observadores é que a maioria dos processos de tomada de decisão procede da democracia direta, de uma forma ou de outra; que a maioria dessas decisões é tomada em nível local; e que as decisões são tomadas a partir da base, de acordo com a estrutura federada.

Porque as assembléias e o DTK são coordenadas pela ilegal KCK , que faz parte do PKK, eles são designados como “terroristas” pela Turquia e pela chamada comunidade internacional (UE, EUA e outros). O DTK também seleciona candidatos do BDP, o partido pró-curdo (Partido da Paz e Democracia) para o Parlamento turco, que propõe “a autonomia democrática” para a Turquia, uma combinação de democracia representativa e democracia direta. De acordo com o modelo federado, propõe-se a criação de cerca de 20 regiões autogestionadas diretamente (como no esquema anarquista, não Suíço) “a educação, a saúde, a cultura, a agricultura, a indústria e os serviços sociais e de segurança, as questões das mulheres, da juventude e dos esportes“, com o Estado continuando a conduzir “os negócios estrangeiros, as finanças e a defesa.”

A Revolução Social está decolando

Enquanto isso, no terreno, a revolução já começou. No Curdistão turco, há um movimento educativo independente das “academias“, que organiza fóruns e seminários nos bairros. Na municipalidade de Sûr Amed [nome curdo de Diyarbakir, NDT], onde uma rua se chama “Rua da Cultura“, o prefeito Abdullah Demirbas saúda a “diversidade de religiões e sistemas de crenças” e afirma que “começamos a restaurar uma mesquita, uma igreja católica caldeia-aramaica, uma igreja ortodoxa armênia e uma sinagoga judaica.”

Jongerden e Akkaya também informaram que “as municipalidades DTP lançaram um “serviço municipal em várias línguas”, que desencadeou um debate acalorado. Painéis indicadores municipais foram erguidos em curdo e turco, e os comerciantes locais seguiram o exemplo.”

A libertação das mulheres é perseguida pelas próprias mulheres através de iniciativas do Conselho da Mulher do DTK, que estabelece novas regras de “quotas para as mulheres de quarenta por cento” nas assembléias. Se um funcionário bate em sua mulher, seu salário é transferido diretamente para a mulher agredida para manter a sua segurança financeira e sua utilização como lhe aprouver. “Em Gewer, se o marido toma uma segunda esposa, a metade de sua propriedade irá para a sua primeira.

Existem as “Vilas da Paz” cooperativas comunitárias, novas ou tranformadas, que aplicam seu próprio programa, completamente fora das restrições logísticas da guerra curdo-turca. A primeira dessas comunidades foi construída na província de Hakkari, na fronteira com o Iraque e o Irã, onde “várias aldeias” se juntaram à experiência. Na província de Van, “uma vila ecológica mulheres” está em construção para abrigar as vítimas de violência doméstica, auto-suficiente “para todas, ou quase toda a eletricidade necessária.”

A KCK realiza reuniões duas vezes por ano nas montanhas, com centenas de delegados de cada um dos quatro países, com prioridade na sua agenda, a ameaça do Estado Islâmico para a autonomia do Curdistão do sul e do sudoeste. Os partidos iranianos e sírios filiados à KCK, o PJAK (Partido por uma Vida Livre no Curdistão) e PYD (Partido da União Democrática) também destacam a confederalismo democrático. O partido iraquiano da KCK, o PÇDK (Partido para uma solução democrática do Curdistão) é relativamente de pouca importância, porque o Partido Democrático do Curdistão (PDK, centrista) no poder e seu líder Massoud Barzani, presidente do Curdistão iraquiano, recentemente parou de perturbá-lo e começou a tolerá-lo.

Mas, nas regiões montanhosas do Curdistão iraquiano, mais ao norte, onde se encontra a maior parte dos combatentes e guerrilhas do PKK e do PJAK, a literatura radical e assembléias florescem, com a integração de numerosos curdos das montanhas depois de décadas de viagens. Nas últimas semanas, esses militantes desceram das montanhas do norte para lutar ao lado dos peshmerga iraquianos contra o ISIS, salvando 20.000 Yezidis e cristãos nas montanhas de Sindjar e foram visitados por Barzani em uma exibição pública de gratidão e de solidariedade, mas sobretudo para colocar a Turquia e os Estados Unidos constrangidos.

O PYD sírio seguiu o exemplo do Curdistão turco na transformação revolucionária da região autônoma sob o seu controle desde o início da guerra civil. Depois das “prisões em massa” de repressão Baasista, com “10 mil prisioneiros, incluindo prefeitos, líderes locais do partido, os eleitos, funcionários administrativos e ativistas […] as forças do PYD curdas derrubaram o regime do partido Baas no norte da Síria e do Curdistão ocidental, [e] os conselhos locais têm eclodido em todos os lugares.” Os comitês de autodefesa foram improvisados para proporcionar “segurança após a queda do regime do regime baasista” e “a primeira escola de ensino da língua curda” foi criada ao mesmo tempo em que os conselhos estavam envolvidos na distribuição equitativa de pão e de combustível.

No Curdistão da Turquia, Síria e, em menor medida, no Curdistão iraquiano, as mulheres agora estão livres para se expor e são fortemente encorajadas a participar da vida social. Os velhos laços feudais são quebrados, as pessoas são livres para seguir qualquer religião, minorias étnicas e religiosas coexistem pacificamente. Se eles forem capazes de conter o novo califado, a autonomia da PYD no Curdistão sírio e a influência da KCK no Curdistão iraquiano poderiam muito bem servir como um fermento para uma explosão mais profunda da cultura e dos valores revolucionários.

Em 30 de junho de 2012, o comitê nacional de coordenação para a mudança democrática (NCB), a maior coligação da esquerda revolucionária na Síria, onde o PYD é o grupo principal, adotou “o projeto de autonomia democrática e o confederalismo democrático como um possível modelo para a Síria.”

Defender a revolução curda frente ao Estado Islâmico

A Turquia, por sua vez, ameaçou invadir as regiões curdas se “as bases terroristas forem instaladas na Síria“, quando centenas de combatentes da KCK (incluindo o PKK) em todo o Curdistão cruzaram a fronteira para defender Rojava (região oeste) diante do avanço do Estado Islâmico. O PYD diz que o governo islâmico moderado da Turquia já está envolvido numa guerra por procuração contra eles, facilitando o trânsito de jihadistas internacionais através da fronteira para ajudar a combater ao lado dos islamistas.

No Curdistão iraquiano, Massoud Barzani combateu com a Turquia na guerrilha contra o PKK na década de 1990, em troca de acesso aos mercados ocidentais, solicitou uma “frente unida curda” na Síria através de uma aliança com o PYD. Barzani assinou em 2012 com Salih Muslim Muhammad, líder do PYD, o “Acordo de Erbil” formando o Conselho Nacional Curdo e reconhecendo que “todos os partidos são sérios e determinados a continuar trabalhando juntos.”

No entanto, embora o estudo e a prática das ideias socialistas libertárias entre a gestão e as bases da KCK é certamente um desenvolvimento positivo, ele continua a ver o quão longe dessa influência é suficientemente séria para que eles abandonem seu passado autoritário sangrento. A luta curda pela autodeterminação e soberania cultural é um vislumbre de esperança em meio às nuvens sombrias que estão se reunindo ao longo do Estado Islâmico e as guerras sangrentas inter-fascistas entre o islamismo, o baasismo e o sectarismo religioso ao qual deu a luz.

Uma revolução pan-curda, socialmente progressista e laica com elementos socialistas libertários, unificando os curdos iraquianos e sírios e revitalizando as lutas na Turquia e no Irã, ainda pode ser uma perspectiva. Enquanto isso, aqueles de nós que gostam da idéia de civilização devem reconhecer a sua gratidão para com os curdos, que lutam na primeira linha de frente, dia e noite contra o fascismo dos jihadistas islâmicos na Síria e no Iraque, defendendo as suas vidas e os valores da democracia radical.

“Os curdos não têm amigos, exceto as montanhas”

(Provérbio curdo)

 

Tradução: A. Thomazini

Revisão: Rafael V.

 

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3 comentários sobre “O Partido dos Trabalhadores do Curdistão se transforma numa força para a democracia radical – Rafael Taylor

  1. Pingback: O Partido dos Trabalhadores do Curdistão se transforma numa força para a democracia radical | Curdistam

  2. Este artigo, apesar de em vários pontos retratar bem a trajetória de luta do povo curdo e do PKK, é completamente unilateral. Tenta traçar um rompimento total com uma suposta “tradição autoritária sangrenta” e apoiando uma “outra voz anglofônica anarquista e em inglês é o Fórum Anarquista do Curdistão (KAF), um grupo pacifista de curdos iraquianos que vivem na Europa e reivindicam não possuir “vínculos com outros grupos de esquerda.” Apesar de apoiar um Curdistão federalista, o KAF disse que “não apoiará o PKK até que este abandone completamente a luta armada, participe na organização dos movimentos populares de base para a satisfação das necessidades sociais da população, denuncie e desmantele os seus métodos de luta centralizada e hierarquizada, para tornar-se uma federação de grupos locais e autônomos, cortando todos os laços e relações com os Estados do Oriente Médio e do Ocidente, denunciando a política de poder carismático, e será assim que se converterá em anti-estatista e anti-autoritário, portanto,somente nestes termos teremos o maior prazer em cooperar plenamente com eles. “ ou seja, querem que o PKK se desarme… que piada. Não há problema em ser não sectário e não ortodoxo (o termo correto seria não dogmático) mas de forma alguma há ou haverá rompimento completo com determinados elementos e análises maoistas, pois isto significaria a morte do PKK e da luta dos curdos. Receber novos aportes não significa (e nem pode significar) rompimento com sua tradição. Em síntese, o que estão aplicando (claro que de forma criativa) não se diferencia muito da frente única revolucionária defendida pelos maoistas. E não da maneira mecânica ou utilitarista que boa parte dos maoistas defende.

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