De um Curdo para os Curdos: nós precisamos manter firmes os direitos LGBT – Naila Bozo

17 de Abril de 2015

Estou sentada num sofá em um pequeno dormitório, folheando as páginas da última edição da Vogue Magazine. O meu amigo está me servindo chá curdo que ele acabou de fazer na cozinha e que divide com outros estudantes universitários. Preocupado com o amargor do meu chá, ele o dilui com mais água. Ele é o perfeito anfitrião, um curdo típico conhecido por sua hospitalidade. Seu nome é Jacob Firat Tas e ele concordou em falar comigo sobre ser curdo e gay.

“Eu sempre soube que era homossexual, eu sempre soube … Eu prefiro dizer que eu sempre soube que era diferente, eu só não sabia por que eu era diferente.”

“Como eu cresci, eu entendi que eu era diferente em relação a minha sexualidade.”

“Isso aconteceu na sétima série, eu devia ter 13 anos de idade. Eu estava numa viagem da escola e eu ouvi alguns rapazes conversarem sobre sobre filmes adultos. Eles mencionaram pornô gay, você sabe, pornô homossexual, e eu pensei, oh, isso me interessa. “Foi aí que a ficha caiu. Eu ouvi a palavra ‘gay’ misturada com um adjetivo sexual e de repente isso fez sentido para mim. Eu, então, passei a perceber o que a palavra  significava, eu li tudo o que tivesse em mãos e me pareceu: este era quem eu era. Foi aí que eu entendi que eu era homossexual “.

“Meu pensamento inicial foi que eu não queria ser gay. Naquela época, eu não queria ser isso. Eu não queria ser mais diferente do que era e agora eu poderia acrescentar que sendo homossexual eu seria sujo, imundo e apenas vulgar.”

“Eu rezei para todos os deuses, eu só queria que essa maldição fosse embora. Eu senti que era uma maldição ou um teste de um poder superior.”

“Eu fui aceitando com o tempo. Foi um longo processo. Sempre que eu parava na frente do espelho e olhava para ele, eu não gostava do que via. Eu achei que era vulgar e me senti mal sobre mim mesmo. Eu estava escondendo esse lado de mim mesmo e eu não contei a ninguém. Eu estava com medo que  descobrissem que eu era homossexual ou “feminino” como algo associado a ser homossexual. Eu estava com medo da reação das pessoas. Então eu mantive isso em segredo.

“Anos depois, eu me peguei brigando comigo mesmo. Eu estava com 19 e tinha decido que era hora de aceitar a mim mesmo.”
“Eu contei a um amigo próximo no último ano do colégio. Então eu contei aos meus amigos, a minha irmã, meus primos. No meio do ano passado eu contei aos meus parentes.”

Naila: E como eles reagiram?

“Eu disse ao meu pai primeiro. O tempo que levou essa conversa foi o tempo mais difícil que eu já vivi. Mas eu queria fazê-la. Eu não me senti pressionado. Eu disse a ele e apresentei todos os meus argumentos e ele fez o mesmo. no final da conversa, perguntei-lhe em curdo: pai, você me aceita? E ele respondeu: Como eu não posso te aceitar, você é meu filho ”
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Naila: Que papel você acha que a comunidade LGBT curda (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) poderia ter para a luta curda por liberdade e identidade?

“Eu acredito que a comunidade LGBT na luta curda pode dar um plataforma que derrube os muros dos assuntos tabus na comunidade curda. Ela pode dar uma compreensão sobre as diferenças, não só das diferenças religiosas e políticas, mas também sobre a orientação sexual.

Naila: Porque não há o mesmo apoio para os direitos LGBT na luta pela liberdade curda como há pelos direitos das mulheres?

“O PKK tinha Sakine Cansiz. Não podemos esquecer as mulheres que abriram o caminho [para os direitos das mulheres]. A estrutura social da comunidade curda foi revolucionada em relação aos sexos, mas a orientação sexual ou mesmo a sexualidade não são mencionadas em nenhum lugar.”

Naila: Porque não?

“Há uma necessidade disso. Mas só recentemente é que o assunto foi trazido. Sebahat Tuncel [deputada curda no Parlamento turco pelo partido pró-curdo HDP] é uma defensora dos direitos LGBT, não apenas para os curdos, mas também em geral. ela fala abertamente sobre isso, mas quando ela vai para as regiões curdas, ela não leva essa questão. Isso é porque esse assunto ainda é considerado vergonhoso, ainda é tabu. ”
“Foi como na década de 80, quando o PKK, cuja ideologia eu concordo, fez suas reuniões: as mulheres locais não participavam dessas reuniões, como os membros masculinos de sua família não permitiam que elas participassem, porque não havia espaço para elas.”

“É a mesma coisa [com relação a botar os direitos LGBT na agenda]. Nós precisamos criar o espaço. Nós temos visto durante as eleições locais que existem prefeitos de partidos pró-curdos que mandam mensagens para a comunidade LGBT.

Naila: Por que o movimento curdo não tem um franco porta-voz para os direitos LGBT que seja também LGBT?

“Seria bom ter um modelo que se pudesse olhar para cima, que poderia dizer, ‘Aqui estou eu, isso é o que precisamos.” O movimento curdo não tem alguém que pode colocar os direitos LGBT na agenda. Nós não temos um porta-voz, porque ele ainda é um tabu “

Naila: Você acha que isso vai mudar?

“Em relação a situação atual agora, não, mas em um aspecto social, sim. Nós vemos mais e mais pessoas LGBT com um pano de fundo curdo avançar em vez de viver uma vida dupla.”

“Não é uma doença, mas não é algo que elas escolhem ser. As pessoas não escolhem ser lésbica; elas não escolhem ser homossexuais. Você nasce assim”

“Assim que o povo curdo perceber e aceitar que isso é algo que você nasce como, assim como eles nascem heterossexuais, e aceitar a pessoa como um ser humano igual, então nós não teremos um problema.”

“Eu não acho que há uma necessidade de um movimento separado dentro do movimento curdo mas [LGBT] precisa ser dado mais espaço.”

Naila: O que você acha do argumento apresentado por alguns curdos que agora não é o tempo para lidar com direitos LGBT curdos? Que existem assuntos mais importantes na agenda do povo curdo?

“Anos atrás não era o tempo para lidar com os direitos das mulheres. Essa é minha resposta. “

“Por que você odeia algo que você não conhece? Se seu irmão não é homossexual, então o seu amigo é. Se a sua irmã não é homossexual, então seu vizinho é.”

“Temos que discutir o assunto agora. O problema é que as pessoas não veem a necessidade de discuti-lo. Mas precisamos parar com essa atitude. Podemos fazê-lo por falar nisso, compartilhando informações sobre ele. Converse com sua família sobre isso, talvez um deles seja homossexual Eu não estou dizendo conversar sobre sexo;. Eu estou falando de conversar sobre identidade “.

“A homossexualidade é parte de uma identidade. A minha mensagem final é que devemos confiarmos em quem nós somos. A maneira como  nós curdos estamos mantendo inabaláveis nossa independência e democracia é a maneira com a qual devemos manter inabaláveis nossa identidade e direitos LGBT.”

Tradução: Rafael V.
Fonte: Kurdish Rights

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