Ser mulher no país mais democrático do mundo

2016-03-08-1457442823-2852166-ypj1Em entrevista à uma miliciana das YPJ, unidades de proteção femininas, perguntaram se ela não temia à guerra. “Medo?”, respondeu com surpresa. “O medo é para as mulheres ocidentais em suas cozinhas”.

Quando li que havia uma região no Oriente Médio onde a mulher e o homem ocupam a mesma posição social não conseguia acreditar. Pensei, deve ser um típico exagero da propaganda revolucionária. Meu natural ceticismo me fez querer ver com meus próprios olhos.

Rojava, parte do chamado Curdistão Sírio, é, provavelmente, o país mais democrático do mundo. Aqui não tem eleições presidenciais; não são necessárias. O poder é exercido pelas assembleias de bairro por meio de consenso e participação direta.

Estas assembleias são organizadas em confederações de distritos, comarcas e, finalmente, cantões. Para serem consideradas legítimas as assembleias tem que terem ao menos, 40% de participação de cada gênero.

Cada um destes níveis tem suas comissões e ministérios específicos: ecologia, economia, industria, esporte. Também existe um grupo específico para as minorias étnicas e religiosas que tem uma representação mínima garantida. Obviamente, também há uma comissão específica dedicada às mulheres.

Além disso, todos os cargos administrativos, seja num ministério, uma prefeitura ou a presidência de uma comunidade de vizinhos, são duais, ou seja, sempre compostos por uma mulher e um homem [é o chamado co-presidencialismo].

Por último, as mulheres em Rojava tem suas próprias instituições, totalmente autônomas, tanto na sociedade civil (Yekîtiya Star, Jinên Ciwan) como no exército (YPJ).

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Esta improvável situação, impossível há cinco anos, existe graças ao consistente trabalho do movimento de libertação curdo.

Por sua parte o PKK está a mais de quatro décadas organizando a resistência curda contra o Estado turco, aliado do Estado Islâmico.

Seus ferrenhos valores ecologistas, feministas e democráticos, embasados na teoria da ecologia social e o municipalismo libertário de Murray Bookchin e, forjados na neve de Bakûr, são agora a inspiração para a revolução de Rojava.

Segundo o líder do PKK, Abullah Öcalan, “sem a libertação das mulheres não poderá haver libertação social”.

Em rojava, o movimento das mulheres não se define especificamente como feminista. Contudo, criaram a Jineologi, o estudo da mulher [ciência da vida/ciência das mulheres], que pretende fugir do dogmatismo e do positivismo que poluem o debate, mas é profundamente político desde sua mesma existência.

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Temos a tendência de pensar que a Europa é a panaceia social, a nata do feminismo, e zenit dos direitos humanos, o paraíso dos oprimidos. Acostumados a ensinar, esqueceram de aprender.

Na Espanha dizemos que existe democracia porque ainda comparamos com o período franquista. Conformamo-nos a viver em uma ditadura melhor do que a anterior. Acostumamo-nos a viver com medo em nossas cozinhas, mas Rojava nos demostra que outro mundo é possível.

Então, é isso? Rojava é a sociedade ideal e utópica pela temos lutado por tantos séculos? Finalmente conseguimos?

O doce sonho contrasta com uma cruel realidade nas ruas: pra além das instituições revolucionárias, na vida privada de muitas famílias ainda reina a lógica patriarcal. A função opressora dos homens é passiva e são, sobretudo, as mulheres as que reprimem umas as outras, perpetrando papeis de submissão e decência através da pressão social.

O outro grande ponto pendente é o caso dos homossexuais, transgênero, etc. Até o momento, é um assunto completamente tabu, uma caixa que espera ser aberta. Também, deve-se falar de assuntos como o aborto, a prostituição, a infidelidade, mas, deixaremos isto para outra ocasião.

Tantos séculos de dominação e assimilação por parte do fundamentalismo religioso não podem ser eliminados de um sopetão mas, a semente está plantada e está sendo enraizada com força.

As pessoas de Rojava são muito conscientes de que uma autêntica revolução será feita pelas próximas gerações. Sabem que, quanto maiores são as escolas, menores são as prisões e estão colocando todo seu esforço na criação de estruturas educativas livres para que isto não seja apenas um experimento social.

Girls of the YPJ having a laugh. I still find it amazing how the girls can maintain such a happy demeanor despite what is asked of them. They are truly inspirational and I consider myself to be one of the very fortunate few who actually gets to spend time with them.

Traduzido do espanhol em 06/05. Fonte original.

Uma tradução alternativa pode ser encontrada aqui.

*Publicação original:

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