Opinião: Hawzhin Azeez fala sobre Aleppo

Existe um vídeo de uma mulher chamada Eva Bartlett, jornalista canadense e “ativista de direitos humanos” que viralizou. Bartlett afirma que esteve na Síria e nas zonas de guerra em Aleppo 4 vezes (como ela conseguiu deve ser respondido em breve) e que em sua ‘experiência’ o povo de Aleppo e da Síria estão completamente e inteiramente apoiando Assad e querem ele de volta ao poder. Seu discurso em um encontro da ONU está sendo visto como representação da ‘verdade’ e ela é aplaudida por ser a voz da razão contra a mídia internacional que cada vez mais é vista como difamadora de Assad e advogar por uma “mudança de regime” levantando sentimentos desconfortáveis das falhas que resultaram nos desastres no Iraque e Afeganistão. De fato, ela mesma é parte da mesma máquina de propaganda cujo trabalho vai contra os interesses e sofrimento do povo de Aleppo.

Mas, para entender o que está acontecendo em Aleppo nós precisamos entender que a cidade é dividida em duas partes: as áreas controladas pelo regime – que é a área que ainda tem discotecas, restaurantes e belos parques, e onde as pessoas são frequentemente fotografadas torcendo efusivamente por Assad bem-vestidos, bem alimentados e seguros (e portanto evidência da “bondade” do regime com seu povo)- e as áreas controladas por rebeldes – que são áreas bombardeadas e destruídas que frequentemente vemos imagens. Dentro desta área, ou mais precisamente em algum lugar no meio está a área controlada pelo curdos de Shiekh Maqsud. Eu estou assumindo que Eva conhece a primeira parte de Aleppo e foi apoiada pelo regime para viajar não uma mas quatro vezes de forma segura – isto não quer dizer que não há pessoas apoiando Assad nas áreas despedaçadas de Aleppo mas sua visão parcial reflete uma suspeita confiança em um aspecto da história.

Mas para entender quem está cometendo quais atrocidades e o que está acontecendo nós precisamos voltar um pouco para entender algum contexto e eventos históricos e militares que aconteceram:

Um grande ponto de disputa entre rebeldes e o regime foram os dois bairros de Nubl e Zahraa – xiitas (alauítas) no noroeste de Aleppo – que estavam sobre direta pressão dos rebeldes que tentavam cercar e massacrar os doir bairros. Política identitária é muito importante aqui já que o regime é xiita alauíta enquanto os rebeldes são muçulmanos sunitas. O ataque direto dos rebeldes contra as cidades xiitas e civis resultou em uma retaliação do governo em defesa de “seu povo”.

Um importante mecanismo de sobrevivência que Nubl e Zahraa usaram foi um corredor até o cantão de Afrin. Os curdos (YPG/YPJ) mostraram generosidade e supriram estes locais com comida e suprimentos para que sobrevivessem, até que a operação para “libertar” Aleppo pelas forças do regime foi iniciada. Irados pelo apoio do YPG a Nubl e Zahraa, os rebeldes retaliaram usando repetidamente armas químicas contra civis curdos em Sheikh Maqsoud. Eles viram os esforços do YPG em providenciar ajuda e suprimentos humanitários para estas duas vilas estratégicas como prova da colaboração dos curdos com o regime de Assad. Como resultado desta visão os rebeldes repetidamente usaram morteiros para atacar Sheikh Maqsoud desde 2015 e mataram um grande número de pessoas. Fotos horríveis dos mortos e feridos existem como evidência disto, enquanto todas as imagens de armas químicas utilizadas pelos rebeldes são em Shiekh Maqsoud porque eles estão dispostos a usar armas químicas nos curdos mas não em outras áreas incluindo bairros controlados pelo regime. Especificamente, os rebeldes utilizaram mísseis caseiros e extremamente destrutivos chamados de Hell Cannons repetidamente em Shiek Maqsoud. Naturalmente, o YPG lutou contra estes ataques. Porém todas imagens da mídia internacional silenciam a tragédia de Shiek Maqsoud e e reduz o conflito a regime vs rebeldes apagando a enorme luta e humanidade do povo e das forças do YPG em Shiek Maqsoud. Também apaga a questão curda no processo e reduz o processo ainda mais a um conflito entre árabes.

Da mesma forma, o regime também atacou os curdos, recentemente em Hasake e anteriormente lutas violentas ocorreram em Qamishlo. Em Aleppo, o regime retaliou contra os curdos despejando bombas de barril em Shiek Maqsoud.

No estágio inicial da operação do regime, as forças de Assad conseguiram cercar os rebeldes, que por sua vez quebraram o cerco utilizando veículos suicidas para criar um corredor para fora do cerco. Com estas primeiras quebras do cerco, os russos com ajuda do Irã – mais especificamente o Hezzbollah – tornaram-se mais envolvidos, e mais brutais em quebrar os rebeldes. Nos primeiros estágios (final de 2015) da operação para retomar Aleppo um alto comandante iraniano chamado Hossein Hamedani, supostamente defendendo lugares sagrados xiitas em Aleppo foi morto pelos rebeldes. Ele foi o primeiro alto comandante a morrer em missão estrangeira desde a revolução iraniana nos anos 70 e resultou em uma intensificação do Irã para limpar Aleppo de rebeldes sunitas (salafistas) a qualquer custo adicionando mais brutalidade. Por sua vez os rebeldes são apoiados pela Turquia, Qatar, Arábia Saudita e outros países árabes. Outro cerco é forçado pelo regime, Irã e Rússia e este é o que toma Aleppo, e é onde está a atual situação.

Então quem são os chamados rebeldes “moderados” rotulados como oposição síria? Eles incluem vários grupos salafistas e islamistas, incluindo o grupo Nuradin Zanki, Jabhat Fatah al-Sham (anteriormente al-Nusra), junto com Ahrar al-Sham e Jaish al-Islam. Nuradin Zanki foram os que publicamente decaptaram Abdullah Issa, menino palestino de 12 anos que apoiava o regime – um crime que filmaram e alegremente compartilharam. Ahrar al Sham é outro grupo islamista que operava no leste de Aleppo e deseja impor a lei da Sharia na Síria e globalmente. Mas por conta da atenção midiática que o ISIS atrai por conta de sua brutalidade, a brutalidade e violência desses rebeldes pssou despercebida e sem registros.

Enquanto Assad está matando jihadistas no leste de Aleppo os rebeldes e aliados fogem. Pelo que sabemos acontecem atrocidades mas em qual nível e quem são os alvos é a chave aqui. Imagens surgiram do YPG encontrando barbas cortadas dos rebeldes, que podemos assumir que estão “unindo-se” com a população civil, como se não fossem eles mesmos uma das fontes do terror que vivem estes civis. O que podemos deduzir é que as atrocidades por parte do governo estão no mesmo nível daquelas demonstradas contra os civis de Shiekh Maqsoud, com a exceção de que não é mais necessário usar morteiros e mísseis porque as áreas rebeldes foram tomadas e o regime pode ir de casa em casa.  

A realidade é, a mídia internacional está mostrando que o regime está engajado em massacres e no assassinato de civis. Estes civis são frequentemente, porém não sempre, aqueles aliados com grupos rebeldes. Parte do grande problema com a mídia internacional é que perpetuando um lado da história – que o regime Assad é brutal e está matando civis inocentes – que realmente está. O outro lado que não está sendo contado é que os rebeldes (porém não necessariamente a oposição síria porque lembre-se que existem multiplos grupos diferentes e não podemos assumir homegeneidade aqui e alguns deles querem mudança democrática) foram tão brutais quanto o regime Assad. Três dias atrás os rebeldes queimaram 6 ônibus que iriam evacuar civis das vilas xiitas tomadas pelo governo de Foah e Kefraya. Ontem, estes mesmos rebeldes foram seguramente transportados para fora de Aleppo.  

Um dos maiores criminosos em Aleppo é na verdade a mídia internacional que se aliam com os grupos rebeldes e promovem a visão que pela virtude de Assad ser tão brutal, os rebeldes são portanto uma alternativa viável. Massacres vem acontecendo desde o início tanto pelo regime e pelos rebeldes. Assad massacrou pessoas e os rebeldes também massacraram pessoas e a única vez em que ambos concordaram foi quando atacaram os curdos em Shiekh Maqsoud por promover ajuda humanitária e segurança de forma indiscriminada a todos cidadãos independente de lealdade ou afiliações.

Alguns dos ativistas são simpatizantes dos rebeldes que com o resultado da recaptura de Aleppo pelo regime estão extremamente preocupados sobre sua segurança. Um bom exemplo da natureza problemática dos “ativistas” pedindo ajuda é a garota de 7 anos chamada Bana I-Abed que tuitava de Aleppo. Sua família voôu de helicóptero para encontrar o matador de crianças Erdogan e literalmente o abraçou ontem jogando significante ceticismo na situação.   

Outro exemplo é o fotógrafo que fez as imagens do pequeno garoto de 5 anos Omran Daqneesh que se feriu nas áreas rebeldes de Aleppo, e que as imagens esperando na ambulância viralizaram significando a brutalidade do regime. A imagem foi feita por um fotógrafo simpatizante/afiliado do Nuradin Zanki, que também tira fotos simpáticas ao Nuradin Zanki. O ponto não é que a imagem do garoto machucado era uma mentira. O ponto é que os mesmos assassinos violendos decaptadores de crianças filmavam os crimes do regime – crimes que eles mesmos cometem em outros bairros. E que apenas um lado da brutalidade está sendo seletivamente apresentada. Fossem os rebeldes a tomar toda Aleppo iriam se engajar no mesmo nível de violência contra os que são a favor do regime de Assad.

Ao mesmo tempo diferentes forças militares como o Hezbollah e outros grupos iranianos aliados e as forças do regime estão se vingando de rebeldes sunitas e civis aliados com eles. Estão matando combatentes e civis quase indiscriminadamente, ou acidentalmente. Muitos também desapareceram.

No meio de tudo isso estão dois grupos: os civis que não são afiliados com o regime e com os rebeldes e estão sofrendo e o bairro de Shiek Maqsoud. Como resultado das disputas e brutalidade tanto do regime quanto dos rebeldes, até 1 de dezembro 10.000 civis árabes foram documentados fugindo para a área de Shiek Maqsoud. Desde então milhares mais entraram na área. Água, remédios, e outros suprimentos básicos estão sendo fornecidos a eles via um corredor de Afrin pela SDF (Forças Democráticas Sírias) que estão ao redor de Aleppo diretamente para o YPG em Shiek Maqsoud. O silêncio acobertador da mídia sobre os árabes buscando refúgio em Shiekh Maqsoud continua.

Alguns civis também foram para áreas controladas pelo regime. A maioria deles parecem querer sair de Aleppo e estão sendo levados por ônibus. Mas Aleppo é um pequeno exemplo do que está acontecendo ou do que vem acontecendo na Síria como resultado do regime ou dos igualmente violentos rebeldes. Na realidade nenhum é uma alternativa apropriada.

Além disso, se você está preocupado com o que está em Aleppo no momento você deveria estar extremamente preocupado quando o regime voltar sua atenção para a cidade vizinha de Idlib, a última base dos rebeldes. Aleppo foi difícil de tomar, mas Idlib será mais fácil, mesmo controlando um corredor que leva a Turquia e onde a al-Qaeda junto com os rebeldes estão bem situados. Se o regime e forças aliadas quiserem manter seu momento e enfrentar os rebeldes, estes poderão ser facilmente destruídos em Idlib. A próxima administração dos Estados Unidos indicou que irá cortar relações com os rebeldes. Trump declarou que irá trabalhar com a Rússia sobre a situação na Síria. Então os rebeldes estão em apuros. Ao mesmo tempo a Rússia é uma peça chave engajando-se em uma guerra terceirizada na Síria e comprometida a acabar com os rebeldes. Os rebeldes dividem uma grande fronteira com a Turquia que está determinada em ficar na Síria.

Uma vez que os rebeldes forem destruídos, o regime claramente declarou que irá atrás dos curdos, que por sua vez estão ocupados lutando e libertando o país dos terroristas do Estado Islâmico. Em troca do apoio que recebeu da Rússia, o regime prometeu grandes reservas de petróleo na área de Rimelan no cantão de Cîzirê em Rojava.

Uma coisa é certa, mais massacres irão acontecer em Idlib e de lá deus nos ajude quando curdos e o regime – apoiado pelo Irã, inaptidão dos EUA, a ganância da Rússia e o desejo da Turquia de acabar com os curdos de uma vez por todas – se enfrentarem de forma definitiva.

Post original no Facebook.

Hawzhin Azeez é militante dos movimentos de mulheres em Rojava e escreve diretamente da Síria.

 

 

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