Rojava ou Norte da Síria?

por Cihad Hammy

Texto original no Kurdish Question.

No dia 27 de dezembro na cidade de Rmeilan (Rimelan), a Assembléia Constituinte do Norte da Síria votou para remover a palavra “Rojava”, que significa “Curdistão Oeste”, do sistema federal; inicialmente denominada Sistema Democrático Federal do Norte da Síria-Rojava e agora chamado Sistema Democrático Federal do Norte da Síria”.

A remoção de “Rojava” levou a debates e tensões entre o povo curdo nas quatro regiões do Curdistão. Os oponente desta mudança a vêem como uma degradação das aspirações curdas por direitos nacionais. Outros chegaram ao ponto de dizer que desvaloriza e minimiza os sacrifícios do povo curdo em Rojava. Pessoas que defenderam a mudança disseram que a remoção de um termo étnico tornou o sistema federal mais inclusivo e correto no que diz respeito a abranger áreas fora de Rojava e nas quais os curdos não são a maioria populacional.

Rojava como herança coletiva e revolucionária

Então qual é a forma correta de ver a situação em termos políticos e ideológicos do sistema que tem sido construído?

Nós sabemos que comunidades e povos tem uma forte memória coletiva. Neste sentido a mudança no nome não pode apagar “Rojava” da vida social e da história porque tornou-se uma herança coletiva e revolucionária – para usar os termos de Hannah Arendt. Nos último cinco anos Rojava tem sido celebrada em músicas, estórias, poemas, e em conferências locais, nacionais, regionais e internacionais, jornais e veículos. Muitos pessoas até nomearam seus recém-nascidos de Rojava.

Além disso o impacto e potencial de Rojava e seu projeto de construir uma “nação democrática” – em termos de administração, democracia, pluralismo, igualdade de gênero e autodefesa – não é e não deve ser confinado a uma geografia específica curda (Cizire, Kobani e Afrin). Importante notar, que um dos principais membros do TEV-DEM Aldar Xelil escreveu no jornal em árabe Elaph, que não deveriam excluir outros grupos étnicos, culturas, linguagens e religiões, que estão em coexistência com o povo curdo na mesma geografia. Aldar escreveu: “Portanto não usar “Rojava” um termo político não significa dissolver ou negar sua existência. Sim mostra um esforço real em aumentar a efetividade e impacto da revolução de Rojava em nível nacional e regional em termos de democracia e resistência contra regimes e ideologias repressivos e reacionários.”

O que significa Norte?

Para compreender o significado do Norte da Síria, é essencial iluminar a voz de um de seus mártires, Abu Leyla, que sabia bem a complexidade sociológica da região. Durante a resistência de Kobani contra o Estado Islâmico (IS), Abu Leyla enviou uma carta a sua filha, Leyla. Ele escreveu: “Este é o nosso caminho minha filha, nosso caminho é um dever de defender, trabalhar e lutar para ter um futuro melhor e livre para você e para todas crianças como você.” Nesta carta, Abu Leyla focou em um “futuro melhor e livre” para todas as futuras gerações da Síria, indo além das estreitas tendências nacionais.

Abu Leyla liderava um batalhão chamado “Sol do Norte” cujos membros eram árabes, turcomenos, armênios, alevitas e curdos. O nome do batalhão foi cuidadosamente escolhido para demonstrar seu acolhimento a todo povo do norte da Síria. Teve um papel fundamental – junto com o YPG e YPJ – na libertação de Kobani. Muitos árabes foram martirizados na luta de Kobani contra o IS; em retorno, Abu Leyla , um curdo, foi martirizado na libertação de Manbij, que é composta predominantemente por árabes.

Em uma conversa por telefone o porta-voz oficial do Conselho Militar de Manbij (MMC em inglês) Shervan Darwish – que era o melhor amigo de Leyla e junto com ele estabeleceu o batalhão Sol do Norte – me contou que a nova constituição federal é o que o batalhão Sol do Norte tinha como objetivo. “Nosso projeto não era apenas limitado a defender o povo contra o terrorismo, mas um projeto democrático. Um projeto que possa incluir os sonhos de todos os povos em uma constituição democrática que contém todos os componentes sociais diferentes da Síria.”

Shervan expressou que uma visão política homogênea não pode conter toda a diversidade de culturas e linguagens na cidade de Manbij, pois a cidade é tanto multi-cultural e multi-étnica. Ele disse que o motivo pelo qual o povo de Manbij administra suas vidas de forma democrática com sucesso é porque, “existe um projeto político democrático que inclui toda riqueza e diversidade da cidade. Agora existe cooperação e solidariedade entre todas as pessoas. Isto é porque nós trabalhamos com base em uma constituição democrática, não uma estreita visão nacionalista.”

O que é projeto da Sistema Democrático Federal do Norte da Síria

O núcleo do Sistema Democrático Federal do Norte da Síria, foi definido pela Assembléia Constituinte em sua declaração final, é a Nação Democrática.

A Nação Democrática é um projeto desenvolvido pelo líder ideológico do PKK, Abdullah Ocalan, e objetiva engendrar fraternidade, democracia, paz e liberdade não apenas no Curdistão e para os curdos mas também pelo resto do Oriente Médio. O objetivo do projeto é criar uma mentalidade e estruturas formadas para e por cidadãos livres e ativos independente de sua raça, língua, cultura e religião. É um projeto que vai além das “limitadas fronteiras políticas artificiais que foram desenhadas pelos poderes coloniais como extensão de sua política de dividir e conquistar na sociedade”.

Ocalan continua: “A definição de uma nação democrática que não é ligada por fronteiras políticas rígidas, uma linguagem, cultura, religião e interpretação da história, significa pluralidade e comunidades assim como cidadãos livres e em igualidade existindo juntos e em solidariedade.”

Este projeto objetiva empoderar e politizar todas as pessoas de baixo para cima. O poder flui de instituições e assembléias criadas por todo o povo. Estas assembléias se confederalizam umas com as outras nos níveis locais, regionais e nacionais. É na base desse projeto que o povo do Norte da Síria declarou um sistema democrático federal.

O Sistema Democrático Federal do Norte da Síria também se encontra em conflito com o estado-nação centralizado em Damasco. O estado-nação de Damasco é baseado na negação e marginalização de todas diferentes linguagens, culturas e religiões da região, enquanto o projeto federal celebra toda a diversidade e pluralismo incluindo cada aspecto das várias linguagens, culturas, religiões e povos em toda Síria. A diversidade é refletida em seu contrato social, sociedade e política cotidiana.

Conclusão

Democratização começa com termos democratizantes e radicalizantes. Portanto, termos devem ser cuidadosamente escolhidos para evitar atributos nacionalistas . Nacionalismo deve ser combatido sempre que se tornar o fator determinante em guiar as instituições ao tomar decisões políticas e sociais. Estes termos devem ser escolhidos no nível humanístico.

Para proteger e garantir o legado de Abu Leyla e todos lutadores que perderam suas vidas por uma Síria livre e democrática, o Sistema Democrático Federal do Norte da Síria deve ser o novo sol nascendo do norte que pode iluminar a escuridão criada pelo estado-nação de Damasco pelas últimas 6 décadas. Rojava continuará a ser um dos raios mais brilhantes deste sol e viverá na memória coletiva e histórica de todos os povos que contribuiram e continuam a contribuir para esta revolução.

Nota: “Rojava” como termo e geografia é uma entidade constituinte da Federação Democrática do Norte da Síria e será reconhecida como tal.

Traduzido pelo Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda

 

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