Meu camarada, Michael Israel

michael

Meu companheiro, Michael Israel, foi morto em um bombardeio turco perto de Minbij em 24 de novembro de 2016. Michael era um dos mais gentis e mais bonitos seres humanos que eu já encontrei. Eu queria ter uma escrita como a de Shakespeare para descrever meus verdadeiros sentimentos sobre Michael. Ele era um verdadeiro revolucionário que acreditava na solidariedade internacional e estava disposto a colocar sua vida na linha de frente para defender o povo de Rojava e todos aqueles que não estão em condições de se auto defenderem. Michael e eu nos juntamos ao YPG (Unidades de Proteção do Povo), que é um grupo militante auto organizado no Norte da Síria e um pouco do oeste do Curdistão.

Nós estávamos muito próximos um ao outro por um período de dois meses enquanto passamos pelo treinamento com o YPG. Durante esses meses eu tive muita sorte de ter Michael ao meu lado. Em uma de nossas primeiras conversas eu disse a Michael que eu era um anarquista e ele disse: “Eu acho que é mais fundo, eu sou um tipo de um revolucionário socialista, por eu mesmo.” Nós entramos em um acordo então. Quando chegamos em Rojava, a unidade de mídia do YPG veio nos cumprimentar e nos pediram para dizer algumas palavras às câmeras. Como Gore Vidal prescreveu, um bom americano nunca deve perder uma oportunidade de falar com a mídia. Mas Michael foi muito breve em expressar seus sentimentos em uma rotação de menos de 30 segundos, ele disse que tinha vindo a Rojava no espírito do internacionalismo e ele estava lá para defender a revolução e os povos de Rojava. Em seu segundo retorno à Rojava, mais de um ano depois, Michael expressou o mesmo sentimento no vídeo (que pode ser acessado aqui).

Nessas poucas palavras, Michael conseguiu expressar seus sentimentos. Eu, por outro lado, passei a dar um discurso de vinte minutos, em diferentes línguas, para a câmera. Até o momento eu tinha falado por mais de 20 minutos e o nosso tradutor continuou agitando com gestos engraçados para indicar que eu deveria cortar curto. Isso pode indicar para vocês que Michael pode ter sido tímido, mas isso está longe de ser verdade.

Quando se tratava de questões de princípios, Michael era um feroz juiz de caráter. Em um dos campos de treinamento, encontramos um neonazi da Alemanha, que pela maneira como ele atuava, nós dois tivemos que levar o front em nossas mãos (ele era um viciado em drogas e estava tendo uma crise de abstinência). Devo notar que, nos meses subsequentes, o YPG parou a aceitação de todos os voluntários internacionais, a fim de ter uma melhor triagem e impedir que os neonazistas e afins afiliados se juntassem. Desnecessário dizer que no tempo de uma guerra sangrenta controlar o fluxo de lutadores estrangeiros é uma tarefa horrível.

15326589_10101542334990263_7137669532639178519_n

Um dia, eu estava lendo um livro quando Michael veio até mim e ele disse que um de nossos compatriotas, que era fluente em alemão, tinha dito a ele que o nazista estava cantando uma canção sobre a fabricação de cinzas de judeus, Michael estava furioso com razão. No começo eu disse a Michael que devíamos ser discretos e meu comando em curdo não era bom o suficiente para ter uma conversa com nossos comandantes sobre o nazismo. Também assinalei que outro dos combatentes internacionais – que Michael e eu convenientemente denominamos de “Louisiana” – era tão ruim quanto o Nazi em questão em termos de racismo, mas esse, ao menos teve mais cuidado ao expressar seus sentimentos. Depois de alguns minutos, Michael me convenceu a ficar no comando e não preciso dizer que fomos capazes de cuidar da questão. Michael me trouxe uma grande lição: nunca devemos comprometer os nossos princípios.

Exceto por Michael, nenhum dos outros voluntários internacionais realmente falou a linguagem da esquerda progressista, então naturalmente nos tornamos bons amigos e eu encontrei conforto em nossas longas conversas e discussões. Michael disse que ele não tinha problemas com o anarquismo e ele iria lutar por uma revolução anarquista, mas ele ainda preferiu se identificar como um socialista. Como parte de uma coalizão em Sacramento, Michael havia voltado a seu estado natal, Washington, para um protesto contra a guerra. Talvez ele tenha pensado que a batalha em Rojava fosse sua próxima batalha na vida para cumprir o desejo de fazer justiça. Sentia a indiferença abominável americana em relação à Síria e ao povo de Rojava e sentia-se muito apaixonado quando falávamos com nossos camaradas curdos.

Os problemas da vida cotidiana em uma zona de guerra muitas vezes nos impediram de discutir nossa filosofia, mas acabamos envolvidos em longas discussões sobre o tipo de sociedade ideal que imaginamos, sobre o desenvolvimento da democracia apátrida em Rojava e sobre nosso papel e habilidades em participar da revolução. Às vezes, eu me via conversando por muito tempo e Michael ocasionalmente fazia uma pergunta pungente sobre Rojava e a luta revolucionária. Isso não me agradava e quando eu disse a Michael que eu gostaria de ouvir mais dele, ele disse que eu era da região e que estava mais interessado em saber a minha perspectiva sobre a guerra.

A presença contínua de Michael e sua solidariedade me permitiram colocar as coisas em perspectiva em tempos perigosos. Nossos países de nascimento causaram assassinatos em massa e bombardeamentos deixando muitos feridos, mas a extensão da grande maioria da esquerda progressista não foi mais do que uma mera dublagem das lutas revolucionárias ao redor do mundo, Michael, por outro lado, foi um verdadeiro revolucionário que colocou suas ideias em prática. Sua vida e luta é um testemunho das ideias e dos ideais da humanidade. A que todos nós devemos aspirar e que todos nós devemos apreciar.

No melhor sentido da palavra, Michael era um de nós, ele não tinha que estar em Rojava, mas ele lutou com sua vida, a coisa mais sagrada que ele tinha. Ele acreditava no feminismo, na ecologia da liberdade, da justiça e da revolução social. Ele aprendeu a língua curda mais rapidamente do que qualquer um de nossos compatriotas ocidentais. Muitas pessoas em Rojava que lutam no YPG não têm escolha, mas estão lá para defender suas casas e sua sobrevivência, mas Michael estava nesta luta, porque ele acreditava em defender aqueles que não podem defender-se. Ele acreditava na luta revolucionária e na liberdade.

Michael foi morto por um avião turco que foi feito na Filadélfia, EUA, parceiro da América no crime.

Irã, Turquia, Arábia Saudita, Qatar e Rússia estão se intrometendo no caso sírio. Os esquerdistas ocidentais não sabem quase nada sobre a Síria, sua sociedade, seu regime, seu povo, sua economia política, sua história contemporânea ou passada. Michael, no entanto, era um dos melhores esquerdistas autodidatas que você encontraria na Síria. Ele aprendeu. Ele ouviu e ele agiu com base em suas crenças.

Ele dedicou sua vida preciosa para suas ideias, porque ele acreditava em fazer o mundo um lugar melhor. Nós somos deixados a viver pelo seu exemplo: organizar e lutar contra.

Por Metin Bahar exclusivo para o Comitê de Solidariedade a Resistência Popular Curda de São Paulo, Brasil (tradução local).

Poema de Rumi dedicado pelo companheiro Metin:

His death is a wedding with eternity.
What is the secret of death? “God is Thee.”
The sunlight splits when entering the windows of the house.
This multiplicity exists in the cluster of grapes;
It is not in the juice made from the grapes.
For she who is living in the Light of thee,
The death of the carnal soul is a blessing.
Regarding her, say neither bad nor good,
For she is gone beyond the good and the bad.
It is in the vision of the physical eyes
That no invisible or secret exists.
But when the eye is turned toward the Light of Thee
What thing could remain hidden under such a Light?
Don’t call all these lights “the Light of Thee”;
It is the eternal light which is the Light of Nature,
The ephemeral light is an attribute of the body and the flesh.
There is a light of fire in those eyes
The bird of vision is flying towards
You with the wings of desire.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s