Entrevista com combatente brasileiro em Rojava

 

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Em janeiro o Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo entrevistou Bal Dilsoz, brasileiro que está combatendo junto aos povos de Rojava e outros internacionalistas no Norte da Síria. Confira a seguir:

Comitê: Qual o seu nome ou como podemos te chamar?

Bal Dilsoz:  Meu nome é Baz Dilsoz, mas pode me chamar de Heval Baz.

Comitê: Desde quando você está em Rojava?

Baz: Desde o ano passado (2016).

Comitê: Você se envolvia em política no Brasil? Segue alguma linha ideológica definida?

Baz: Militei em um partido por quase seis anos, hoje estou num limbo ideológico entre o distributismo de esquerda e o Apoismo (segue teoria desenvolvidas por Abdullah Öcalan, conhecido como Apo entre os curdos).

Comitê: Qual o motivo que te levou a combater por Rojava? 

Baz: Por que aqui é a maior experiência revolucionária do nosso tempo, e por causa da monstruosidade do estado islâmico e da República da Turquia.

Comitê: Você concorda com o projeto do confederalismo democrático? E qual importância vê no que está acontecendo em Rojava atualmente?

Baz: Sim, concordo e acho uma pena que no Brasil não se conheça essa corrente política. Pra mim, Rojava representa a esperança de um mundo melhor na nossa geração.

Comitê: Pode falar um pouco sobre seu time e batalhão e onde atuou.

Baz: Passamos por vários Tabur (batalhão) aqui, entre infantaria ligeira, armas pesadas e logística. Trabalho não falta.

Comitê: O que você e seus companheiros esperam para o futuro próximo, na Síria e internacionalmente?

Baz: Esperamos a democratização da Síria e sua unidade no federalismo, a derrota do fascismo de Erdogan e vemos com esperança as agitações revolucionárias em diversas partes do globo.

Comitê: Muitos internacionalistas atuam em Rojava também com o intuito de trazer acúmulo revolucionário para seus locais de origem, pode falar sobre isso e se acredita que parte dessa experiência pode se internacionalizar e aproveitada em um país como o Brasil.

Baz: É verdade. Muitos de nós queremos adaptar as experiências daqui em nossos países de origem. O confederalismo democrático não está confinado ao Curdistão, pelo contrário, é um projeto pro mundo todo. Ele trás soluções diretas aos problemas causados hoje pelas nações-estados, e tem sobrevivido às provações práticas.

Comitê: Você aprendeu kurmanji, como se comunica? 

Baz: Entre os estrangeiros falamos em inglês, geralmente. Mas todos aprendemos um pouco de Kurmanji. O quanto vc aprende depende somente da sua dedicação: tem hevalên que em três meses já conversam com os curdos, e tem outros que passam dois anos aqui e só falam “roj baş”.

Comitê: Quais são as condições materiais dos locais onde vocês atuam hoje, existe dificuldades com alimentação, água potável, medicamentos e que tipos de restrições vocês sentem devido ao embargo do KRG, exemplo?

Baz: Os soldados da logística do YPG são verdadeiros heróis, eles não deixam faltar nada para nós. Equipamentos, água, comida e remédios estão sempre disponíveis, mas por causa do embargo, a qualidade nem sempre é das melhores. O KRG é uma associação de criminosos, capangas de Erdogan. Seu objetivo agora é derrubar o governo revolucionário e colocar em seu lugar outra marionete do ocidente. Bom, que tentem, nós somos madeira que cupim nenhum pode furar.

Comitê: O que mais te chamou atenção nesse período?

Baz: A consciência dos curdos sobre a revolução. Impressiona, só estando aqui pra saber.

Comitê: Chegou a participar de ações militares junto com combatentes mulheres?

Baz: Sim, e acredite, elas são o demônio! O papel delas na luta é decisivo, são combatentes espetaculares.

Comitê: Se puder nos relatar algum acontecimento que teve junto com seu tabur pra tentarmos entender um pouco do que passa por aí.

Baz: No front 103% do tempo é tédio, com 4% de margem de erro. A maior parte do tempo se faz trabalho de sentinela, se estuda e se toma chá. Mas, ao nascer e ao pôr do sol, a cobra fuma.

 

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