Informe sobre a resistência curda/fevereiro de 2018

afrin

A revolução curda em Rojava entrou o ano de 2018 numa situação dramática. No dia 20 de janeiro, o exército turco invadiu o cantão de Afrîn. Afrîn é, junto com Kobanê e Cizirê, um dos três cantões onde os curdos do Curdistão oeste (Rojava) exercem a sua autonomia democrática. Ainda não está claro o objetivo da Turquia com essa invasão, se é uma tentativa de enfraquecer a confederação curda, já que Afrîn não forma um território contínuo com os outros cantões, ou se é um plano de destruição completa da autonomia democrática e da confederação, preparado para atacar depois os outros cantões.

Para essa iniciativa, a Turquia comprou com armas e dinheiro outros setores do Exército Livre Sírio, continuando com o processo de corrupção material que tinha começado com a Operação Escudo do Eufrates em 2016. Além de sufocar os curdos, essa cooptação enfraquece os setores que lutam contra a ditadura de Assad na Síria. Não parece que isso é apenas um efeito colateral, porque desde o ano passado, porque a Turquia tem se alinhado com a Rússia e entrado cada vez mais em conflito com os Estados Unidos e a OTAN desde a tentativa de golpe contra Erdogan em 2016, que foi feita centralmente por setores islamistas ligados a Fetullah Güllen, que é pró-americano e está exilado nos EUA. Como a Síria atualmente é quase que controlada pela Rússia, a invasão em Afrîn pode ser parte de um acordo maior de divisão do oriente médio em áreas de influência.

Erdogan também ordenou uma onda de prisões para qualquer um que critique a invasão de Afrîn publicamente, o que já teve como resultado mais de 150 presos. Mesmo assim, o povo curdo tenta resistir no Curdistão norte, sob controle do Estado turco, e o seu braço político legal, o HDP (Partido da Democracia Popular) fez em fevereiro o seu congresso, mesmo com o seu principal líder, Selahatin Dimîrtas, ainda preso. No Curdistão norte continua a guerra de baixa intensidade contra os curdos.

Já no Curdistão sul (sob controle do Iraque), houve uma onda de protestos em janeiro contra o governo regional curdo, que ficou numa situação de isolamento internacional depois da vitória do Sim no referendo pela independência em setembro, já que os EUA, com que Barzani contava como aliados no processo de independência, lavaram as mãos quando o governo do Iraque declarou o resultado inconstitucional e nulo. O Curdistão sul, então, está passando por uma grave crise política e econômica, que abre a possibilidade de revoltas populares contra o governo.

E no Curdistão oriental (sob controle do Irã), a virada do ano foi marcada por um grande ascenso de lutas, como não ocorria desde 2009, começando como um protesto contra a situação econômica e logo se radicalizando em reivindicações pela queda do regime islâmico. Estiveram presentes vários setores oposicionistas, tanto de direita como de esquerda, assim como as principais minorias nacionais do país, os árabes e curdos, mas o processo em si foi na maior parte espontâneo.

As maiores mobilizações se dispersaram, mas ainda estão acontecendo todas as quartas-feiras manifestações de mulheres que tiram o véu publicamente, num ato de desobediência civil. Vale lembrar que no Irã as mulheres são forçadas por lei a se cobrir da cabeça aos pés e as dissidentes que são pegas são presas. Esse movimento é parte das várias lutas das mulheres que têm acontecido numa onda crescente desde 2011 no oriente médio e no norte da África.

Diante desses fatos, o nosso papel como movimento de solidariedade é principalmente divulgar essas lutas e tentar fazer ações, mesmo em pequena escala, contra a ofensiva de Afrîn, que é o principal fato político na região, ligado a ele a questão da repressão na Turquia. Também é importante tentar dar mais divulgação à luta das mulheres no Irã, que é a expressão de um processo que alcança toda a região e que se aproxima da luta das mulheres curdas contra o patriarcado e o fundamentalismo.

Viva a Resistência Popular Curda! Viva a resistência pupular em Afrîn! Viva a luta das mulheres curdas e iranianas!

#SolidariedadeNãoTemFronteiras

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