A ordem reina em Rojava

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A revolução foi derrotada.

Diante da invasãoturca desde o dia 8/10, depois do anúncio do Trump da retirada das tropas americanas, as defesas curdas não conseguiram resistir a um dos exércitos mais fortes da OTAN. Sem opção, tiveram que fazer um acordo com a ditadura síria, com o objetivo de formar uma frente militar pra impedir a invasão. Só que a Síria, hoje, só mantém uma independência formal. É a Rússia que, desde 2015, controla o país, e tem ajudado o Assad a destruir todas as formas de oposição, independente de serem democráticas ou islâmicas, pra manter o controle sobre o território e se posicionar na disputa de áreas de influência no Oriente médio.

E a Rússia e a Turquia fizeram um acordo no dia 22/10, aceitando o objetivo do Erdogan: a criação de uma “zona segura” de 30 km, de onde as YPG vão ser expulsas, e que vai ser monitorada conjuntamente pela Rússia, a Turquia e a Síria.

Nessa região, ficam as cidades mais importantes da autonomia democrática : Kobanê, Qamishlo etc. Além disso o acordo inclui a integração dos curdos dentro das instituições do Estado sírio. E toda essa colaboração invoca legalmente o Acordo de Adana, assinado entre a Turquia e a Síria em 1998 pra determinar o fim do apoio sírio ao PKK – foi esse acordo que levou à expulsão do Abdullah Öccallan, que seria preso no ano seguinte pela Turquia.

Com 300 mil pessoas expulsas de Rojava, tendo que ir pra uma região quase toda desértica e controlada pelo regime sírio, as instituições da autonomia democrática foram inviabilizadas. O que resta são as guerrilhas YPG/YPJ. Isso coloca os curdos de Rojava, depois de sete anos de paz relativa, na mesma situação dos curdos de Bakur (Turquia) e Rojilat (Irã) – dominados e sem direitos humanos e nacionais respeitados pelos respectivos Estados. Foi a derrota do processo revolucionário aberto em 2012. Mesmo que os curdos consigam liberar essa região novamente, será um recomeço a partir do zero.

 

Derrota? Capitulação? Traição?

Uma parte importante da esquerda mundial, principalmente os partidos de matriz stalinista, está quase comemorando a derrota, dizendo que esse foi o preço de confiar no imperialismo.

Essa posição é a consequência lógica do apoio dessas organizações ao imperialismo russo, que eles consideram como um pólo contrário à hegemonia americana. É outro pólo, sim, mas também um pólo burguês e que, prolongando na política externa as posições autoritárias de Putin, tem dado suporte a ditaduras capitalistas como a de Assad na Síria.

Por isso, queremos deixar bem claro: não foi errado os curdos se aproveitarem das contradições entre os blocos imperialistas, e fazerem uma aliança militar tática com os Estados Unidos contra o ISIS. Também não foi um erro tentar uma aliança militar tática com a Síria contra a invasão: na verdade, não existiam outras opções.

Onde, sim, houve erro, foi na perspectiva geral do PYD, que acreditou mais na possibilidade de manobras entre esses blocos do que na democratização da Síria. Como já tínhamos dito em 2016, não seria possível uma Rojava democrática dentro de uma Síria ditatorial. A autodeterminação do povo curdo depende do resultado das lutas revolucionárias nos quatro países em que eles estão aprisionados.

Mas mesmo essa linha do PYD não faz com que a derrota tenha sido o resultado de uma traição. Eles não entregaram o poder. Lutaram até o final. Foram até o limite em que viram que poderiam ir sem provocar um genocídio. Esse é o significado de algumas declarações recentes. Que os defensores da colaboração de classes com o imperialismo russo chamem a direção dos curdos de traidora. Para nós, a responsabilidade principal pela derrota não é deles, e sim do esgotamento do espaço político estreito que eles tinham conseguido, devido às políticas de Erdogan, Trump e Putin.

 

Nossas tarefas de solidariedade

A derrota criauma nova situação, que vai exigir uma nova estratégia: o apoio humanitário e político à luta do povo curdo em todas as regiões do Curdistão.

Nossa solidariedade é ao POVOS DO CURDISTÃO, para além de concordar ou não com toda a política da sua direção, e para além de, em determinado momento, existirem ou não regiões em autonomia democrática. Isso, pela justeza da sua luta, e pelos valores socialistas, libertários, laicos, feministas e ecológicos que ela traz.

Vemos o Confederalismo Democrático em todo o Curdistão ocupado pelos quatro Estados formais ali existentes. Esse modo de produção e reprodução da vida é a forma concreta dos povos da região para superar o patriarcado e o chauvinismo, dominações estruturais que jamais foram postas em cheque nem pelos projetos mais avançados como o quase socialismo na Argélia, o panarabismo de Nasser e a heroica esquerda palestina.

Por isso, reafirmamos a nossa intenção de nos mantermos no trabalho de divulgação dessa luta, e de solidariedade material através do Crescente Vermelho Curdo.

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