Linha de frente contra o Estado Islâmico, combatentes curdas são alvo n°1 na Síria

As lutadoras simbolizavam a revolução feminista no enclave curdo de Rojava. Mas desde a invasão turca em outubro, elas estão cada vez mais vulneráveis à violência sexual na zona de guerra.

 

por Shaina Oppenheimer e Wilson Fache / Haaretz [15/11/2019]
trad. Lucas Gomes [16/11/2019]
2 combatentes ajoelhadas no front

Combatentes da YPJ. Crédito Andia / UIG via Getty Images IL

     Nos primeiros dias da ofensiva turca na Síria, no mês passado, o vídeo de um comando apoiado pela Turquia profanando o corpo de uma combatente curda tornou-se viral nas redes sociais. “Allahu Akbar! [Alá é grande!] Esta é uma das prostitutas que vocês nos enviaram”, gritou um dos soldados, de pé sobre o corpo de uma mulher com o nome de guerra Amara Renas.

     O comando fazia supostamente parte de uma coalizão de mercenários que foram contratados pela Turquia para sua missão de estabelecer uma “zona segura” ao longo de uma faixa do nordeste da Síria, após a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de retirar as tropas americanas da região. Essa decisão deixou as forças curdas para se defenderem por si mesmas, com as combatentes se expondo duplamente à ameaça de violência sexual.

     Fotos e vídeos semelhantes mostrando soldados proclamando vitória sobre mulheres curdas capturadas foram compartilhados no Twitter por jornalistas e acadêmicos na Síria. Também no mês passado, a política Hevrin Khalaf, 35 anos, foi emboscada enquanto dirigia perto de Tal Abyad. Ela teria sido puxada do carro, espancada violentamente, arrastada pelos cabelos e morta a tiros. Fotos de seu corpo mutilado apareceram mais tarde na internet, provocando protestos internacionais.

     “Com o assassinato de nossa amiga Hevrin Khalaf (…) uma mensagem foi enviada a todas as mulheres”, diz Saristan Efrin, uma combatente curda de 31 anos posicionada em Al-Darbasiyah, na fronteira sírio-turca.

     Efrin pertence às Unidades de Proteção das Mulheres, a milícia feminina conhecida como YPJ que ajudou a proteger Rojava (a região autônoma de fato do Curdistão sírio alvo da ofensiva turca em curso). Fundada em 2013, a unidade é composta principalmente por curdos que lutaram ao lado das Unidades de Proteção do Povo – YPG nas Forças Democráticas da Síria – SDF. As SDF foram a ponta de lança de uma campanha liderada pelos EUA contra o grupo Estado Islâmico – EI no nordeste da Síria.

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Manifestantes erguem foto de Hevrin Khalaf durante protesto, Budapeste, Hungria, 7-11-2019. Crédito AFP

     A principal autoridade curda Ilham Ahmed, co-presidente do Conselho Democrático da Síria (o braço político das SDF), disse ao Haaretz que “existe um tipo específico de guerra dirigida às mulheres. Vimos isso com o assassinato de Khalaf. Sua morte representa esta guerra: ela era uma mulher lutando pela liberdade – e foi alvejada por isso. ”

     Enquanto milícias apoiadas pela Turquia, tropas sírias e russas avançam no enclave curdo, as combatentes de Rojava são deixadas na posição mais vulnerável de todas. Hana, uma ativista curda de Qamishli cujo nome foi alterado para proteger sua identidade, disse ao Haaretz em uma entrevista por telefone que, para as combatentes, “perder é pior do que morrer”.

     O vídeo de Khalaf “foi realmente importante para os soldados mostrarem às mulheres: veja, é assim que vamos tratar seu corpo se você for capturada”, acrescenta Hana.

     O Observatório Sírio para os Direitos Humanos diz que as milícias curdas estão se retirando de partes da zona de fronteira, mas Efrin diz ao Haaretz que elas ficarão para lutar.

     A Turquia lançou sua ofensiva militar trans fronteiriça na vizinha Síria em 9 de outubro, com o objetivo de afastar as SDF de sua fronteira. Um acordo negociado por Moscou e Ancara em 23 de outubro cedeu efetivamente parte do território mantido pelas SDF à Turquia. Mas, apesar desse acordo, os líderes curdos disseram que a ofensiva turca ainda está em andamento, inclusive em áreas fora da “zona segura” de 30 Km.

Campanha de vingança brutal

     Estima-se 20.000 combatentes na YPJ, o que foi crucial na luta contra o EI entre 2013 e 2019. No entanto, enquanto os Estados Unidos transformaram os curdos em seus aliados na luta contra o EI, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan os considera terroristas associados ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (conhecido como PKK, ao qual ambos Turquia e Estados Unidos consideram ser uma organização terrorista).

     Quando a Turquia se juntou à coalizão liderada pelos EUA para combater o EI, também começou a realizar prisões e invasões em distritos curdos dentro da Turquia para reprimir a atividade do PKK como parte de um conflito maior entre o Estado e sua população curda.

     Milícias apoiadas pela Turquia no nordeste da Síria “veem o inimigo como terrorista, mas veem as mulheres como prostitutas. Eles as veem de maneira própria, extremamente patriarcal”, explica Dilar Dirik, feminista curda e pesquisadora do Centro de Estudos para Refugiados da Universidade de Oxford. Os milicianos são os que filmam e postam os vídeos como parte de sua própria propaganda, diz Dirik, acrescentando que “esta é a mensagem que eles querem mostrar ao mundo – e especialmente às mulheres”.

     Em outubro de 2017, quando as SDF declararam vitória sobre o Estado Islâmico em Raqqa, publicaram especificamente fotos de combatentes agitando a bandeira da YPJ. Essa vitória não islâmica e liderada por mulheres, sobre jihadistas do sexo masculino, pode ser um dos principais fatores na sequência de recentes ataques violentos contra mulheres. De fato, Adam Hoffman, um pesquisador do EI no Centro Moshe Dayan de Estudos do Oriente Médio e Africano, Universidade de Tel Aviv, suspeita que seja um “retorno em termos étnicos, nacionais e de gênero” com base na honra masculina árabe.

     “A campanha de vingança brutal é agravada pelo fato de serem mulheres e curdas”, diz ele ao Haaretz.

     Embora haja poucos detalhes sobre a composição das milícias apoiadas pela Turquia, “há uma certa convicção de que muitos desses combatentes estavam envolvidos em milícias islâmicas e jihadistas”, diz Hoffman.

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Combatentes da YPJ, Qamishli, Curdistão sírio, 2013. Crédito  Manu Brabo / AP

     De acordo com Marco Nilsson, professor associado de ciência política da Universidade de Jönköping, na Suécia, que escreveu sobre combatentes curdos e jihadistas, as mulheres curdas têm uma “desvantagem dupla” devido ao seu status de minoria.

     O uso da violência sexual contra mulheres em zonas de conflito não é um fenômeno novo e, como ameaça, não é exclusivo da situação dos curdos. Nilsson diz que geralmente essa violência é uma “estratégia eficiente em muitos conflitos violentos para atingir mulheres: estuprar uma mulher deixa uma marca muito mais forte do que matá-la. O impacto vai durar mais, é mais simbólico e causa vergonha ao inimigo.”

     Sharstan Afreen, uma combatente curda de 32 anos da região oeste de Afrin, em Rojava, diz ao Haaretz: “Quando vemos atos tão brutais e como eles estão tratando os corpos de nossos civis e combatentes, sentimos muita dor. (…) Eles queriam nos dar um recado dizendo que, se você lutar contra o nosso sistema ou mentalidade masculinos, vai compartilhar o mesmo destino que Hevrin Khalaf.”

     Embora ainda não haja evidências de que estupros tenham sido realizados contra combatentes mulheres no norte da Síria como arma de guerra, os vídeos assustadores compartilhados em redes sociais provavelmente fazem parte de uma guerra psicológica projetada para fazer as mulheres curdas temerem que elas estejam sob risco de estupro.

     “As imagens compartilhadas pelas milícias de Erdogan visam intimidar a nós e nossa sociedade”, diz Efrin. “Pelo contrário, eles apenas aumentam nosso desprezo pelos inimigos das mulheres. (…) Esses ataques são simplesmente imorais e fazem parte de uma guerra exclusivamente sexista.”

     A porta-voz da YPJ Nesrin Abdullah concorda, dizendo ao Haaretz em uma entrevista por telefone que “quando matam uma mulher, matam as esperanças de uma sociedade e os valores da humanidade.”

     A batalha com o Estado Islâmico, em muitos aspectos, ofuscou as realizações do enclave curdo, que buscava criar algo único a partir do caos. Após a retirada das forças sírias da área em 2012, os curdos procuraram criar um governo igualitário e de baixo para cima em Rojava, que pretendia trazer todos os grupos sectários – curdos, árabes, sírios, armênios, yazidis e turcomenos – sob um único sistema democrático.

     Ahmed, do Conselho Democrático da Síria, diz que eles “foram capazes de desenvolver um projeto político alternativo” em Rojava. Embora alguns críticos digam que a liderança curda também exibe tendências autoritárias, desfazer o progresso político feito em Rojava tem sido uma prioridade para a Turquia. “Erdogan é contra esse sistema que criamos, que promove a igualdade entre homens e mulheres, bem como a liberdade religiosa. Há um risco enorme agora”, avisa. “Não existe nenhum outro sistema como o nosso em lugar nenhum do mundo – um governo que promove e alcançou a igualdade de gênero. É exatamente isso o que está sob ataque.”

     Desde o início da guerra contra o EI e o envolvimento das forças curdas no terreno, houve um fascínio ocidental – os críticos chamam de “fetichização” – de combatentes mulheres. Elas apareceram rapidamente em filmes hollywoodianos e ensaios fotográficos lustrosos em revistas como Marie Claire. As combatentes curdas também foram destaque na versão mais recente de “Call of Duty: Modern Warfare”, um videogame de tiro em primeira pessoa imensamente popular.

     Em uma visita às capitais ocidentais nas últimas semanas, para defender o apoio, uma delegação diplomática curda chefiada por Ahmed vem divulgando uma narrativa que descreve a operação turca como um ataque à igualdade de gênero – bem como à coexistência religiosa – e como dando uma nova extensão de vida ao Estado Islâmico, que vem se beneficiando da atual crise para reforçar seu renascimento.

     Portanto, talvez não seja coincidência que a fotografia de uma soldado turca posicionada no norte da Síria contra “terroristas curdos” tenha sido recentemente divulgada e compartilhada nas mídias sociais. A batalha é aparentemente tanto por narrativa quanto por território.

Salvando uma sociedade feminista

     Os escritos de Abdullah Öcalan, membro fundador do PKK que sonhava em estabelecer um estado socialista para os curdos, foram uma enorme influência na formação de Rojava. “Quando Öcalan chegou à região [em 1979], foi a primeira vez que as mulheres começaram a se organizar”, diz Dirik. “Ele mudou as relações de gênero em Rojava.” Depois de ser preso pelas autoridades turcas em 1999 por apoiar a luta armada, Öcalan publicou “Jineologia” enquanto estava na prisão, descrevendo os ideais feministas curdos. “Junto do próprio movimento das mulheres, ele pode ser creditado pelo feminismo ser um elemento chave para a questão curda”, diz Dirik.

     As mulheres curdas pegam em armas desde 1995, com a YPJ sendo elogiada por quebrar a mentalidade “de que as mulheres precisam de homens para defendê-las”, diz a porta-voz Abdullah.

     “Depois de 2013/14, vimos muitas mulheres no comando”, diz Hana, explicando que a ideia era que as mulheres não apenas se colocassem na linha de frente contra o EI, mas servissem como solução ideológica para o grupo.

protesto a favor de Abdullah Ocalan.jpg

     “Os curdos criaram uma sociedade que é mais igualitária em muitos aspectos, e não tenho certeza se sob a presença russa eles conseguirão manter isso”, diz Nir Boms, pesquisador do Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv, referindo-se às milícias russas que patrulham atualmente a região.

     Hana também se preocupa com a perda da estrutura social não hierárquica. “Teremos a mesma inclusão e participação no passado de quando os americanos estavam aqui?”, Ela pergunta.

     Se Rojava acaba sob o controle de milícias apoiadas pela Turquia ou pelo regime do presidente Bashar Assad e pelos russos, é claro que nenhum deles terá os direitos das mulheres como prioridade na agenda. Depois, há o perigo muito real do retorno do EI. “A mentalidade e os sistemas masculinos vencerão” se essa incursão não parar, diz Abdullah.

     No entanto, enquanto a dura revolução feminista em Rojava parece ter dias sombrios pela frente, uma ativista curda de Munique, Gulistan, permanece otimista: “Só porque toda a região autônoma está ameaçada, isso não significa que é o fim”.

     Assim como a YPJ estava na linha de frente na batalha contra o EI e o estabelecimento de Rojava, suas combatentes continuam determinadas a liderar o movimento para proteger sua terra natal do que elas chamam de “forças de ocupação turcas”. “Nós, enquanto mulheres e mães, estamos sempre na linha de frente desta revolução”, afirma Afreen. E Efrin acrescenta: “Estamos preparadas a fazer tudo ao nosso alcance para defender nossa terra natal”.

     Enquanto muitos curdos sentem que os Estados Unidos lhes deram as costas, essas mulheres e outras esperam que o mundo não dê as costas contra nenhuma tentativa de restabelecer o domínio masculino no nordeste da Síria. “Todos os ganhos políticos, culturais e econômicos das mulheres estão em jogo”, diz Dirik. “As mulheres em outras partes do mundo precisam defendê-las – esta é a história das mulheres sendo apagadas”.

 

https://www.haaretz.com/middle-east-news/.premium.MAGAZINE-these-kurdish-women-helped-fight-off-isis-now-they-re-the-no-1-target-in-syria-1.8130721

 

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