A primeira banda curda de rock e suas raizes na Geórgia soviética

Fonte: Eurasianet

Tradução: Mariana Ferreira

Quando Koma Wetan foi formada, cantar em turco era ilegal na Turquia. Agora o grupo é uma influência lendária entre roqueiros turco curdos.

Anos antes que fosse possível nas terras tradicionais curdas, quatro jovens rapazes na Tbilisi soviética formaram a primeira banda de rock curda do mundo.

Koma Wetan (Grupo pátria) foi fundado em 1973, com três curdos yazidis e um armênio. O vocalista Kerem Gerdenzeri nasceu e cresceu em Tbilisi, como parte da pequena, mas duradoura comunidade curda no Cáucaso. Mas sua família tinha raízes nas províncias de Kars e Van no leste da Turquia, onde ainda vive uma grande população curda.“

O Curdistão é a terra de nossos pais e avós, a pátria de nosso povo”, diz a letra de uma das músicas do grupo, “Welate Me” (Nossa Pátria). “Essa música é para você, Curdistão, para suas montanhas e primaveras. Este é nosso lugar e nosso lar.”Esse sentimento – cantado na língua curda – teria sido impossível na vizinha Turquia, onde era ilegal falar em curdo até o início dos anos 90. Usar a palavra “Curdistão” ainda é proibido no parlamento turco.Mas na atmosfera multiétnica e relaxada da Tbilisi daquele tempo, Koma Wetan não apenas teve permissão para se apresentar, como também recebeu suporte estatal. A cidade era um dos centros do rock soviético e em 1980 recebeu o primeiro festival de rock oficial na União Soviética.

Um dos impulsionadores do grupo foi o proeminente intelectual e político georgiano-curdo Kerem Anqosi, que foi um dos maiores defensores da cultura curda na Geórgia soviética e que esteve à frente de um programa em língua curda na rádio estatal georgiana por mais de 25 anos. Anqosi ajudou o Koma Wetan a assegurar assistência financeira do Estado para que eles pudessem adquirir instrumentos que, de outra forma, eles não teriam conseguido obter.

Koma Wetan conseguiu alcançar reconhecimento formal como um “conjunto vocal-instrumental”, o termo soviético para bandas de pop e rock que se apresentavam com chancela oficial. Os grupos “eram coletivos financiados ou aprovados pelo Estado com um repertório baseado na cultural musical local e lhes era permitido experimentar com as formas, embora dentro dos limites do que era aceitável”, contou o crítico musical georgiano Kakha Tolordava ao Eurasianet.

E dada a posição da Turquia à época como um Estado inimigo membro da OTAN que fazia fronteira com o Cáucaso soviético, talvez não seja surpreendente que as autoridades pelo menos tolerassem sentimentos que Ankara teria visto como separatismo.“Eu não acho que mencionar o Curdistão em canções durante os anos 70 era problemático para o Estado soviético”, disse Tolordava.

Koma Wetan aparecia repetidamente na televisão georgiana e soviética, Gerdenzeri lembrou depois. “Nós nos apresentamos em muitos festivais e shows,” ele disse em uma entrevista em 2012. “Nós éramos reconhecidos na União Soviética e onde quer que os curdos viviam.”

O grupo fez as demos para o primeiro e único álbum, Baye Payizê (“Os ventos do Outono”), em 1979, entretanto levou até 1989 para a gravação ser lançada. Ele combinava um estilo de rock clássico, alguns floreados psicodélicos, e letras escritas por Gerdenzeri mas tiradas de trabalhos de poetas curdos icônicos do Cáucaso.“Era inevitável que o rock curdo emergisse nos territórios da União Soviética,” escreveu o antropólogo Özkan Öztaş, em seu livro Kurdish Art in the Soviet Union (“Arte curda na União Soviética”). “Tanto a possibilidade de conseguir o melhor e mais avançado equipamento, quanto a oportunidade de se beneficiar da educação na língua materna e educação musical contribuíram para a criação da primeira música de rock curda na história.”

Entretanto, o grande lançamento do grupo veio em uma época tumultuada.

“O ano de 1989, quando o álbum foi lançado, coincidiu com a dissolução da União Soviética de um lado, e por outro , com o massacre dos curdos na cidade curda iraquiana de Halabja por Saddan Hussein com armas químicas, a alguns quilômetros dali,” escreveu Öztaş. Koma Wetan doou os proventos do álbum para ajudar as pessoas de Halabja.

O colapso da União Soviética provou-se fatal para a banda, já que o fim do subsídio estatal forçou os membros a buscar trabalho fora da Geórgia, se lembrou Gerdenzeri.

Mas na Turquia, onde vive o maior número de curdos no mundo, a popularidade e a influência do Koma Wetan apenas cresceu, e serviu de inspiração para muitos músicos curdos que vieram depois. Restrições contra a língua, literatura e música curdas começaram a ser afrouxadas nos anos 90 , e quando uma versão remontada do Koma Wetan se apresentou em um show para celebrar os 40 anos de sua formação, eles o fizeram em Istambul, a cidade com a maior população curda do mundo.

Naquele show, Koma Wetan dividiu o palco com outro grupo histórico: Ferec, a primeira banda de heavy metal que canta em curdo, formada na província oriental turca de Hakkari em 2004.O líder do Ferec, que se apresenta sob o nome artístico de Reh, contou ao Eurasianet que Koma Wetan foi “uma das bandas mais importantes para nós…como o primeiro grupo curdo, Koma Wetan abriu o caminho e influenciou muitos grupos de rock curdos.” Reh comprou uma fita cassete de “Baye Payizê” no final dos anos 90, ele se lembrou.

“A primeira vez que eu o escutei, eu o senti dentro da minha alma”, ele disse. “Era uma fita que nunca ficaria ultrapassada, não importava o quanto você escutasse, ela sempre trouxe prazer.”

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